lá da minha cachola - o som de mARIA


putrescência.

 

 ou a miséria alheia alimentando o life style brega do nosso planeta.


sobrevoei o oceano, cheguei onde não chove e procurei o consolo dos céus

penteei as nuvens com meus olhos, acariciei com os cílios.

uma bailarina do acaso oferecendo seus pés amputados como prato principal num banquete para velhos barrigudos de mastigadas barulhentas e boçais: lambem os dedos, riem e palavreiam enquanto massacram a sutileza invisível das coisas.



Escrito por Maria Casadevall às 13h04
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des-encontro.

 

a gente se perdeu

 

no caminho

 

saiu do ninho

 

a gente nem notou

 

lá fora era estrangeiro

 

morávamos há dias na mesma rua

 

a gente já conhecia os vizinhos

 

a gente se perdeu com os sapatos

 

a gente se perdeu faz quatro horas

 

enquanto você me procurava na suíte

 

a gente se esqueceu, fiquei plantada no quarteirão

nos reencontramos quase na páscoa

 

a gente depois compreendeu

 

só se perdeu porque não despediu

 

a gente estava feliz e nem viu

 

a gente já sorriu

 

você sumiu

no dia em que eu desapareci.

 

 

 



Escrito por Maria Casadevall às 23h27
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chegadas, despedidas (...)

 

muitos poemas dedicados a elas, sobre elas e por causa delas.

o amor se reconhece nelas e entre elas se sustenta como pode.

 

 

 



Escrito por Maria Casadevall às 20h37
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Eu para mim, sou só um detalhe.

Só.



Escrito por Maria Casadevall às 20h13
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de todas as cadeiras daquele bordel, uma só era a que me fazia sentir em casa, com a bunda semi nua sobre ela era possível restaurar minha altivez. Éramos íntimas, duras e silenciosas: a Cadeira e Eu.

 

 



Escrito por Maria Casadevall às 20h05
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Menino, te esperei o ano inteiro.

 

Imaginei caras e bocas, passei perfume diante do espelho: você não veio.

jurei em segredo que te esqueceria: você não veio.

ri de mim: você não veio.

cantei em dueto com as nossas lembranças: você não veio.

zombei da minha tristeza, esfreguei minha coragem na cara dela: você não veio. 

procurei amigos só para o tempo passar mais rápido: você não veio.

pensei em mais de três penteados diferentes: você não veio. 

tive pavor que não viesse: e você não veio.



Escrito por Maria Casadevall às 01h29
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trechinho:

a moça queria tanto vê-lo.

(já era tempo de cheirar-lhe os cabelos)

ela que havia passado o dia pensando nele, só nele, disfarçava bem.

aprendera a mentir direitinho para o mundo: tinha de parecer forte ou sucumbiria cedo demais. as pessoas e as relações machucam a gente. a moça tenta seguir serena, inventando tarefas até o dia em que o mundo seja só silêncio, amor e música.

ela queria que nunca tivessem inventado o telefone assim o único jeito de falar-lhe seria apanhando qualquer taxi na rua até a sua casa naquela noite fria e cheia de mar. mas queria o quê mesmo daquele rapaz? esperava o quê daquela alma? ele era bom enfim. ela pois, lhe daria o que estivesse ao seu alcance, inclusive amor e cú.



Escrito por Maria Casadevall às 00h31
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Feliz Ano Novo.

dois mil e quinze.

 

sobretudo.

íamos à praia nos feriados: nossa alegria era simples.

 

por gentileza (...) por onde começo meu versinho?

por um um segredo besta:

ainda criança achava que quando eu morresse minha morte seria noticiada em rede nacional com imagens alegres em camera lenta.

 

o mundo é um absurdo, a vida é um absurdo.

qual é o momento em que passamos a aceitar as coisas como elas são?

se eu pudesse daria forma à uma composição de Bach excutada por um violoncelo e namoraria com a minha invenção.

nos amaríamos em acordes.

 

 

 



Escrito por Maria Casadevall às 23h38
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a minha vida dentro dos limites do meu nome de batismo é só um parenteses na minha existência: sou um violoncello tocando Bach.

sou cheirinho da xícara esquecida com restinho de café.

não é com a razão que escrevo, não é. escrever é atropelar os limites da minha geografia, é me olhar amanhecer. 

já compreendi: tudo deixa de existir.

e agora que me apeguei ao rapaz?  estou sempre à espera.

quem ama está sempre á espera.

voltei pra mesma casa.

por onde posso começar contando pra ele que a vida me dói todos os dias, como? sem assustá-lo?

alergia à picada de pernilongo vai bem, pois muita gente tem.

mas dor na alma também?

e dói como dói um joelho, é como quando se bate o cotovelo: dor agúda, mas que passa também.

 



Escrito por Maria Casadevall às 23h29
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Sangrei na neve

me socorreram em francês

Eu, ferida em latim

já não contava com os desdobramentos da língua

 



Escrito por Maria Casadevall às 01h49
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Tua ausência envelheceu meus olhos

amarelou meu riso

fiquei sem posses

descaminhei

Volte logo, Poesia

assim quem sabe um dia

à tua revelia

eu possa morrer de vez.

 



Escrito por Maria Casadevall às 04h10
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liturgia analógica.

Se subo na tua canoinha, como me pedes, faço bobagem.

(Tu e Eu, netinhos da tarde). E se o fim do dia se perder em notas,

sapatearemos sobre as águas, gargalhando e envelhecendo (faremos caso da

humanidade) cutucaremos a existência bruta, de acordo com o resto. (Tu e Eu

dois improváveis, intermináveis e inconsoláveis, em desacordo com o tempo,

choraremos inevitáveis, um dia).



Escrito por Maria Casadevall às 00h45
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Je t´aime moi non plus


Melancholia, a película, em doses homeopáticas: filme bruto, diretor egocêntrico. No entanto o filme perde pouquíssimo e eu permaneci sentada por mais quase vinte minutos durante o letreiro, catalisei os excessos e cai em devaneios.  Lars Von Trier é um apaixonado pela espécie humana, embora pareça o contrário, com especial devoção às mulheres, deixando claro o contraste entre os gêneros na maioria de seus filmes, com Melancholia não é diferente. E aqui, Trier o faz num cenário mítico, atemporal; aborda uma catástrofe de magnitude planetária, atendo-se a uma pequena “família” e seus desajustes “cotidianos” (como no primeiro ato, por exemplo). O início é atonal e generalizado (não individualiza relações), os cortes são secos forçando algumas situações propositadamente, para no segundo ato ater-se a detalhes, ao silêncio e à fé, a lente não é mais o olhar de uma mente em aparente desajuste e o seu ponto de vista, pelo contrário, ela registra as relações, de fora delas, crua e sem compaixão nenhuma, deixando para nós as questões sobre a natureza dos acontecimentos.



Escrito por Maria Casadevall às 22h33
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Justine é lúcida demais? É a primeira a notar a insignificância e superficialidade daquele circo armado diante do fim iminente? dribla sua melancolia com sorrisos. é exuberante e cínica, talvez saiba demais. Está exausta nesta condição. Para ela o fim é uma metáfora prestes a objetivar-se. Claire é mãe, gerou, cedeu e deve zelar acima de tudo. Alimenta-se do concreto. Diante da covardia masculina, reforçada pelo diretor, ela cresce. o mundo está representado por duas fêmeas, uma criança e um cavalo. O fim é cruel, impessoal e certo, como de fato é a vida sem os enfeites da civilização e a histeria de um fim coletivo. Como seriam os últimos cinco minutos da espécie humana? Narrativa épica? Não, Pequenina. Simples como um artefato construído pelas mãos de um menino. Humanos, conformem-se: o outro é um abismo, a convivência uma firula, e a lucidez, fatal. 




Escrito por Maria Casadevall às 22h32
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em frânces

Paris: uma puta triste.

estou parede de útero, pedaços de placenta, restos de sangue: sou glóbulos. me desenharam os pés, também junto com mãos e anel, mas eu sempre quis: botava mãozinhas com pezinhos assim para que alguém os amasse sem pedir, sem transcender, cru, com autoridade e em silêncio. desconjuntou-se uma minhoca, e daí? era úmida e suja de terra, estou varandas: pendurada num sábado comprido como quem vai pra um domingo lento de águas remexidas e camélias na cabeça, eles suicidariam toda primavera.



Escrito por Maria Casadevall às 18h28
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